24

Estar na ponta dos pés

É a instabilidade

E com a perna esticada

Não se anda de verdade

Quem se promove não brilha

E quem se gaba não cresce

Se celebrar não é bom

Quem se auto afirma padece

De acordo com o Tao

Todo esse proceder

É qual resto de comida

Ou tumor que vai crescer

Quem segue apenas o Tao

Não conhece essa atitude

Quem segue apenas o Tao

No seu andar não se ilude

25

Antes do mundo existir

Já existia um ser

Indefinida e completa

Não podes ver para crer

Era só e não mudava

Viajava em um segundo

Mas não corria perigo

Podia ser mãe do mundo

Eu não sei qual o seu nome

Por isso eu o chamo Tao

Forçado a lhe nominar

O chamo o Grande imortal

Grande se chama a partida

Partir se chama distante

O distante assim retorna

E então segue adiante

Grandioso é o Tao

O céu é grande também

A terra é grandiosa

Grande é o homem porém

Há quatro grandes no mundo

Essa é minha verdade

E dentre esses quatro grandes

Se encontra a humanidade

Da terra deriva o homem

A Terra do céu deriva

Deriva o céu do meu Tao

Que o Tao por si mesmo viva.

27

Se diz que o bom viajante

É o que não deixa pegada

Se diz que o bom orador

Fala sem culpas nem nada

Sem nem a calculadora

Se diz que o bom contador

Faz o seu nobre trabalho

De muito e grande valor

A porta que é bem feita

Ferrolhos não vai usar

E ninguém a porta abre

E não é de se assombrar

Se diz que a boa atadura

Se faz sem corda nem nó

E ninguém pode abrir

Quem tenta faz até dó

Assim o sábio que é bom

É também um salvador

Não vê ninguém como pária

Gente sem nenhum valor

Assim o homem bondoso

Não despreza nunca nada

E isso sim é chamado

De grande luz aplicada

Bons homens são mestres

De quem não é bom

Quem diz essa quadra

Não muda de tom

E quem bom não é

Do bom é sustento

Recurso e trabalho

Que faz sem lamento

Quem não ama o mestre

E nem seu recurso

Mesmo inteligente

Parece confuso

31

Mesmo as armas mais bonitas

Dos utensílios do mundo

São muito amaldiçoadas

Causando pesar profundo

Todos da humanidade

Detesta-las deveria

Quem segue o Tao não depende

De armas nem por um dia

Todo homem superior

Vive no lar, honra a vida

Mas quando usa armamento

Honra a morte e a revida

Armas amaldiçoadas

Nunca são o instrumentos

Do homem superior

E nem são o seu alento

Ele poderá usá-las

Se inevitável for

Pois a Paz e a quietude

É o que ele da valor

Conquista mas não se alegra

Não tem prazer em ganhar

Só porque um tal deleite

É ter prazer em matar

A matança de milhares

Enche o povo de tristeza

Nós lamentamos chorando

Essa tão grande pobreza

Honramos o vencedor

Que é algoz afinal

Como se tivesse ido

Atender a um funeral

33

O conhecedor dos outros

Inteligente é chamado

Mas quem conhece a si mesmo

Esse é iluminado

Quem vence aos outros é forte

Isso é motivo de gozo

Mas o que vence a si mesmo

É chamado poderoso

Agir forte é ter vontade

Que te leva até o pico

Mas quem sabe contentar-se

É considerado rico

Quem não perde a posição

Perdura, sim certamente

Mas quem morre e não perece

Esse vive eternamente.

34

É dito que o grande Tao

Por toda parte flutua

Na esquerda e na direita

Se encontra a marca sua

Todas as coisas dependem

Dele pra sobreviver

E ele não os rechaça

Isso ele pode fazer

Quando é pronto seu trabalho

Não da a si o louvor

É manto que cobre tudo

Sem agir como senhor

É chamado de pequeno

Tudo pra ele retorna

Sem ser senhor ele é pleno

Sua grandeza é a norma

Assim o homem sagrado

Nunca age como grande

E sem agir ou tentar

Sua grandeza ele expande

36

Para encolher qualquer coisa

É preciso expandir

E para enfraquecê-la

Fortalecê-la é o agir

Para algo abandonar

Então deixe florescer

Para algo possuir

Que o doe sem temer

O nome dessas manobras

Para aprender a lição

É sem dúvida nenhuma

Pequena iluminação

O macio supera o duro

O fraco supera o forte

E essa simples verdade

É tão certa como a morte

Assim como um belo peixe

Não deve o logo deixar

O Estado nunca deve

As suas armas mostrar.

37

O grande Tao nada faz

Nada deixa por fazer

Se todos reis o seguissem

Transformação ia haver

Mas se na transformação

Desejos fossem despertos

Seriam estabilizados

De singeleza cobertos

A singeleza sozinha

Daria fim ao desejo

Então reina quietude

Gente feliz é o que vejo

40

O retorno é o movimento do Tao

A fraqueza é do Tao o proceder

As coisas nascem da existência

E a existência vem do não ser.

41

Quando o homem superior

Ouve falar sobre o Tao

Se esforça pra vivê-lo

Com um empenho real

E o homem mediano

Se do caminho ele ouvir

O guarda um pouco e o perde

Não tem padrão seu agir

Mas se o homem inferior

Ouve as palavras amadas

Ele não tem outra ação

Senão dar gargalhadas

Se ele não gargalhasse

Com desrespeito total

Aquilo que ele ouviu

Não seria o grande Tao

O iluminado Tao

Tem aparência de escuro

O avanço no caminho

Parece bater num muro

O caminho que é reto

Com o que é torto se iguale

E toda maior virtude

Tem aparência de um vale

Até a grande pureza

Se parece humilhação

Também a grande virtude

Parece insatisfação

Ao construir a virtude

A quem pareça ladrão

Consistência verdadeira

Parece instável ação

O quadrado grandioso

Quatro esquinas não possui

O grande recipiente

Muito tarde se conclui

O grande som, meu amigo

É carente de ruído

E é o grande formato

De forma destituído

O caminho é invisível

E não tem nome também

Pois apenas o caminho

Auxilia e conclui bem.