42

O Tao gera o um

O um gera o dois

O dois gera o três

E tudo depois

Todas as coisas carregam

No seu peito o feminino

E é dessa mesma forma

Que abraçam o masculino

A respiração sem forma

É que o faz harmonioso

A respiração sem forma

Harmoniza e traz o gozo

O que os homens mais detestam

Órfãos, indignos, carentes

Mas é assim que se chamam

Reis e príncipes regentes

Pois há coisas aumentadas

Por serem diminuídas

E coisas diminuídas

São aumentadas na vida

O que os outros ensinaram

Eu ensinarei também

O violento e o forte

Por certo não morrem bem.

43

Sob o céu o mais suave

Cavalga sobre o mais duro

Penetra a não existência

No sem espaço mais puro

É por isso que conheço

Vantagens da não ação

É para poucos no mundo

É do silêncio a lição.

44

Entre a fama e o corpo

O que mais se pode amar?

Entre o corpo e a riqueza

Quem mais valor vai herdar?

Entre ganhar ou perder

Qual dos dois mais adoece?

Pense bem pra responder

Pois o problema merece

O excesso de desejo

Causará grande desgaste

E no excesso de acúmulos

Uma rica morte achaste

Quem sabe se contentar

Com certeza não se humilha

Nem mesmo sua pessoa

E nem a sua família

E quem sabe contentar-se

Não corre risco um segundo

Esse poderá viver

Vida longa nesse mundo.

45

A suprema perfeição

Imperfeita se parece

E a sua utilização

Dano nenhum oferece

A suprema abundancia

Se parece até vazia

O seu uso não se esgota

Isso um profeta diria

A suprema retidão

Se parece tortuosa

Assim a suprema arte

Não parece virtuosa

A suprema eloquência

Se parece com gaguejo

Eis um grande paradoxo

E é assim que eu o vejo

Mover-se é que vence o frio

A quietude o calor

Transparência e quietude

São do céu governador

46

Quando o mundo tem o Tao

Os cavalos de corrida

Carregam bastante esterco

E essa é a sua lida

Quando o mundo perde o Tao

Cavalos que são de guerra

São deixados a pastar

No pasto verde da terra

Não há delito maior

Do que o desejo estimar

Não há desgraça maior

Do que não se contentar

Não existe maior erro

Do que a ganância doente

O extremo contentamento

É sempre e só ser contente.

47

Sem sair da sua porta

Da pra conhecer o mundo

Sem olhar pela janela

O Tao se conhece a fundo

Quanto mais longe saímos

Tanto menos se conhece

Por isso o homem sagrado

Sem caminhar se esclarece

Reconhecendo sem ver

Realiza sem agir

A isso se denomina

De viagem do sem ir.

48

Buscando o conhecimento

Se acrescenta dia a dia

Na busca do grande Tao

Sempre se perde, eu diria

Mais e mais simplificando

Se chega ao não agir

Na não ação não há nada

Que não possa concluir

Apropria-se do mundo

Pela não atividade

Mas se surgir uma ação

Se perde a propriedade.

49

Não tem coração o sábio

Do povo é seu coração

Escutai atentamente

E aprende essa lição

Com quem é bom faço o bem

Com quem não é também faço

Eis da bondade a virtude

Virtude tal qual o aço

Com sinceros sou sincero

Com os falsos sou também

Eis a virtude da honra

Se tem ouvido ouça bem

O homem santo na Terra

Age com sagaz cautela

Vai fundindo os corações

Como o fogo funde a vela

O povo mantem os olhos

E os seus ouvidos nele

Os trata como crianças

Esse é o segredo dele.

56

Aquele que fala não sabe

Aquele que sabe não fala

O sábio fecha os portões

E a sua boca ele cala

Ele cegará seu corte

E desatará seu nó

Ofuscará o seu brilho

E se iguala até ao pó

Acordo misterioso

Isso assim é bem chamado

Misterioso comum

Isso nunca é revelado

Do ódio ou do bom favor

Ele não pode ser presa

Alcançá-lo não se pode

O injurio ou a riqueza

Não pode ter muitas honras

E também ser rebaixado

Honrado ele é por todos

Por todos ele é amado.

63

Evite sempre afirmar

E pratique não ação

Aja sempre não agindo

Que haverá solução

Que uma pessoa aprenda

A achar sabor no insosso

Engrandecer o pequeno

Esse um entra no gozo

Multiplicando o que é pouco

Ele deve responder

Ao ódio com gentileza

É isso que há de fazer

Resolvendo o difícil

Enquanto é fácil e ameno

E gerir o grande assunto

Quando é frágil e pequeno

Do mundo as dificuldades

Surgem de causa fugaz

E todos grandes problemas

De pequeno é que se faz

O sábio evita até o fim

Parte ter em grande assunto

E agindo dessa forma

Sua grandeza vem junto

Promessas que são febris

São também de fé carentes

Coisas que parecem fáceis

Dificultam de repente

Assim considera o sábio

Tudo difícil em verdade

É assim que no final

Não tem mais dificuldades.